
OS BENEFÍCIOS DO EXERCÍCIO FÍSICO NAS CONCENTRAÇÕES DE LÍPÍDIOS NO SANGUE
Todos os dias a mídia nos inunda com notícias relacionadas aos riscos de doenças cardiovasculares. Da mesma forma somos também incentivados a praticar exercícios físicos de maneira regular como estratégia preventiva e até mesmo, reabilitadora cardiovascular. Tal relação deve-se ao fato de que a inatividade física pode contribuir para doenças cardiovasculares, mais especificamente reduzindo as concentrações do colesterol de alta densidade (HDL) e aumentando as concentrações do triacilglicerol (TAG) e da lipoproteína de baixa densidade (LDL-colesterol) (Guerra et al. 2007). Embora tal conceito seja de ampla aceitação, é importante classificar cada elemento desta história, a fim de compreendermos melhor como se dá a interação colesterol x exercício.
O dito popular classificou a HDL como “colesterol bom”, e o LDL como “colesterol ruim”. É importante esclarecermos este mito. O LDL distribui o colesterol proveniente da dieta para todos os tecidos periféricos, através da circulação sangüínea. Esta distribuição é extremamente importante, pois o colesterol desempenha diversas funções (ex. formação de hormônios e constituição de membrana celular). Assim, o “excesso de colesterol no sangue que é prejudicial à saúde”, e não o colesterol per se. Por outro lado, a HDL desempenha o chamado transporte reverso do colesterol, cuja função é remover o excesso de colesterol do sangue e direcioná-lo para o fígado, seguindo para excreção na bile.
Efeitos do exercício físico sobre o colesterol
Conforme explicado anteriormente, o exercício físico regular tem participação favorável sobre o perfil das lipoproteínas sangüíneas (Durstine et al., 2002; Guerra et al., 2007; Lira et al., 2008). Neste contexto, o aumento na pratica de exercícios, de maneira continua (aeróbio) tem sido considerado uma excelente estratégia não farmacológica no tratamento e prevenção de diversas doenças (Epstein et al., 1995). Muito bem, já sabemos que praticar exercícios de maneira regular melhora o perfil das lipoproteínas do sangue. Existem efeitos benéficos de outro tipo de exercício além do aeróbio? Qual a intensidade ideal? Preciso gastar um número médio de quilocalorias durante minha sessão de exercícios para obter tais efeitos?
Vamos começar com a questão da intensidade e da quantidade (gasto energético). Vários estudos têm sugerido a existência de uma intensidade ideal para promover modificações no perfil das lipoproteínas do sangue. Por exemplo, um aumento significante nas concentrações de HDL foi observado em indivíduos exercitados a 75% da freqüência cardíaca máxima por 12 semanas, mas nenhuma mudança foi observada no perfil lipídico de sujeitos exercitados a 65% da freqüência cardíaca máxima (Stein et al., 1990). Da mesma forma, estudos conduzidos por Ferguson et al (1998) e Kokkino e Fernhall (1999) demonstraram a existência de um limiar de gasto energético capaz de promover mudanças no perfil das lipoproteínas, cujo exercício físico com gasto igual ou superior a 1.100 -1.600 kcal em intensidade moderada apresenta maior efeito sobre a concentração das lipoproteínas, principalmente, a HDL-c. Assim, além da intensidade, existe uma quantidade ideal de exercício aeróbio capaz de promover alterações benéficas sobre o perfil dos lipídios no sangue Kraus et al (2002).
Treinamento de força x lipídios
“A escolha da intensidade e da quantidade do treino é determinante para colher bons frutos”. |
Como o treinamento de força tem sido uma atividade cada vez mais praticada ao redor do mundo, é natural imaginarmos que tal atividade possa ter implicações sobre o metabolismo de colesterol, especialmente relacionadas ao gasto energético imposto pelas contrações de curta duração/alta intensidade. De fato, Wallace et al. (1991) demonstraram que uma única sessão de exercício resistido executado a 73% de 1 RM (uma repetição máxima- intensidade equivalente a um treino de resistência de força) induziu modificações favoráveis sobre o perfil lipídico, aumentando as concentrações de HDL quando comparado com sujeitos que se exercitaram a 92% de 1 (uma) repetição máxima (intensidade equivalente a um treino de força máxima). Assim, o gasto energético total gerado na execução dos exercícios pode, em parte, justificar os efeitos benéficos do treinamento de força sobre o perfil lipídico. Entretanto, o gasto de energia não parece ser o principal modulador de tal efeito. A intensidade do treinamento de força também parece ser um importante modulador, como veremos a seguir.
Existe uma intensidade ideal do treinamento de força para induzir os efeitos benéficos sobre o perfil lipídico sangüíneo, aumentando a HDL e diminuindo o LDL e TAG?
A resposta é sim, tal efeito parece de fato existir. Assim, a fim de verificarmos tal efeito, nosso grupo (Lira et al, 2008) examinou o perfil dos lipídios no sangue antes e após (1, 24, 48 e 72 horas) a realização de uma única sessão de exercício de força em diferentes intensidades (50%, 75%, 90% e 110% de uma repetição máxima - 1RM). É importante ressaltar que todos os sujeitos levantaram a mesma quantidade de peso, um tratamento denominado equalização. Assim, os sujeitos realizaram a mesma quantidade de trabalho e gastaram a mesmo quantidade de energia. Os resultados apontam que os exercícios de baixa e moderada intensidade (50% e 75% 1RM) afetaram positivamente as concentrações sangüíneas de lipídios, aumentando a HDL em relação ao exercício realizado em alta intensidade 110%. Em contrapartida, o exercício realizado em intensidade moderada (75% - 1RM) reduziu as concentrações de TAG significativamente em relação às outras intensidades (50%, 90% e 110% - 1RM). Finalmente, foi verificado que o exercício executado em baixa intensidade (50% - 1RM) foi capaz de reduzir as concentrações de LDL-colesterol em relação ao exercício realizado em alta intensidade (90% -1RM). Em conclusão, as alterações benéficas sobre as concentrações de lipídios sangüíneas são mais sensíveis às intensidades baixa e moderada, apontando que existe uma intensidade ideal para promover alterações positivas em indivíduos saudáveis. Porém, os experimentos foram realizados de forma aguda, necessitando provar esta hipótese de maneira crônica (longos períodos).
Considerações Finais
Com base nos estudos, é possível concluir que os praticantes de exercícios que buscam explorar todos os benefícios ocasionados por sua pratica, devem ficar atentos ao iniciar um programa de treinamento, pois a escolha da intensidade e da quantidade do treino é determinante para colher bons frutos. Em relação ao treinamento de força, a execução em intensidade baixa e moderada (50% e 75% - 1RM) promove aumento da lipoproteína de alta intensidade (HDL), favorecendo proteção anti-aterogênica, uma vez que o acúmulo de LDL-colesterol está intimamente relacionado com doenças coronarianas. Além disso, o exercício resistido realizado de maneira moderada (75% - 1RM) é também capaz de reduzir as concentrações de TAG, adicionando mais um fator benéfico relacionado à intensidade de exercício. Entretanto, embora os efeitos do treinamento físico aeróbio estejam bastante estabelecidos, mais estudos são necessários para se comprovar a eficiência do treinamento de força sobre a melhora do perfil lipídico, especialmente no âmbito crônico.
Referências
Guerra RL, Prado WL, Cheik NC, Viana FP, Botero JP, Vendramini RC, Carlos IZ, Rossi EA, Dâmaso AR. Effects of 2 or 5 consecutive exercise days on adipocyte area and lipid parameters in Wistar rats. Lipids Health Dis. 2007 Jul 2;6:16.
Durstine JL, Grandjean PW, Cox CA, Thompson PD. Lipids, lipoproteins, and exercise. J Cardiopulm Rehabil. 2002 Nov-Dec;22(6):385-98.Durstine JL, Grandjean PW, Cox CA, Thompson PD. Lipids, lipoproteins, and exercise. J Cardiopulm Rehabil. 2002 Nov-Dec;22(6):385-98.
Lira FS, Tavares FL, Yamashita AS, Koyama CH, Alves MJ, Caperuto EC, Batista ML Jr, Seelaender M. Effect of endurance training upon lipid metabolism in the liver of cachectic tumour-bearing rats. Cell Biochem Funct. 2008 Aug;26(6):701-8.
Epstein FH. Relationship between low cholesterol and disease. Evidence from epidemiological studies and preventive trials. Ann N Y Acad Sci. 1995 Jan 17;748:482-90.
Stein RA, Michielli DW, Glantz MD, Sardy H, Cohen A, Goldberg N, Brown CD. Effects of different exercise training intensities on lipoprotein cholesterol fractions in healthy middle-aged men. Am Heart J. 1990 Feb;119(2 Pt 1):277-83.
Kokkinos PF; Fernhall B. Physical activity and high density lipoprotein cholesterol levels. What is the relationship? Sports medicine, n.28, p.307-14, 1999.
Ferguson MA, Alderson NL, Trost SG, Essig DA, Burke Jr, Durstine JL. Effects of four different single exercise sessions on lipids, lipoproteins, and lipoprotein lipase. J Appl Physiol, n.85, p.1169-74, 1998.
Kraus WE, Houmard JA, Duscha BD, Knetzger KJ, Wharton MB, McCartney JS, Bales CW, Henes S, Samsa GP, Otvos JD, Kulkarni KR, Slentz CA. Effects of the amount and intensity of exercise on plasma lipoproteins. N Engl J Med. 2002 Nov 7;347(19):1522-4.
Wallace MB, Moffatt RJ, Haymes EM, Green NR. Acute effects of resistance exercise on parameters of lipoprotein metabolism. Med Sci Sports Exerc. 1991 Feb;23(2):199-204.
Lira FS, Yamashita AS, Uchida MC, Zanchi NE, Gualano B, Martins E jr, Seelaender MC. Low and Moderate intensity strength exercise affects more beneficially the lipid profile than high intensity strength exercise. J Strength Cond Res. In process
Prof. Fábio Santos Lira
Mestre em Biologia Celular (ICB-USP)
Doutorando em Fisiologia da Nutrição (UNIFESP)
e-mail: lira@unifesp.br
Prof. Nelo Eidy Zanchi
Licenciado em Educação Física (FEFISA)
Mestre e Doutorando em Biodinâmica do Movimento Humano (EEFE-USP)
e-mail: neloz@usp.br
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