CLA (Ácido Linoléico Conjugado) – Você ainda pensa em utilizá-lo?
“Qual a definição de CLA? Como ele atua no nosso metabolismo? Quais as doses recomendadas? Sua utilização é mesmo segura?” |
A sigla CLA significa Ácido Linoléico Conjugado em inglês (Conjugated Linoleic Acid). Ganhou popularidade como uma das promessas de suplementos, supostamente sem efeitos colaterais, que poderia auxiliar na redução da gordura, especialmente localizada na região abdominal. Entretanto, antes de iniciarmos a utilização de qualquer substância devemos buscar na literatura científica a resposta para algumas perguntas: Qual a definição de CLA? Como ele atua no nosso metabolismo? Quais as doses recomendadas? Sua utilização é mesmo segura?
O CLA representa uma mistura de isômeros (substâncias que possuem composição e massa molecular idênticas, mas estruturas diferentes por possuírem organização atômica diferente dentro da molécula) do ácido linolêico (Ômega 6) que diferem deste por apresentarem duplas ligações conjugadas (Pariza et al., 2001). Estes isômeros, especialmente o cis9,trans11-CLA, são naturalmente encontrados na nossa alimentação, especialmente no leite e seus derivados (Wolinsky & Driskell, 2004).
“Ao final de 12 semanas, verificou-se que todos os grupos que receberam CLA apresentaram redução significativa do percentual de gordura em comparação com o grupo placebo”. |
Além da configuração cis9,trans11-CLA, oito outros isômeros já foram identificados, sendo o trans10cis12-CLA o segundo mais facilmente encontrado nos alimentos e suplementos. Mas afinal, qual a diferença entre a configuração cis e trans? Segundo Biesek et al. (2005) a configuração cis ocorre quando os átomos de hidrogênio encontram-se emparelhados em torno da dupla ligação e a configuração trans, ao contrário, ocorre quando os átomos de hidrogênio encontram-se em posições opostas em relação à dupla ligação.
Inicialmente, o CLA havia sido estudado quase sempre com animais. O resultado da maioria das pesquisas sugeria que o CLA poderia trazer diversos benefícios à saúde ou à estética: combatendo o câncer e o Diabetes, dificultando o depósito de placas de gordura nas artérias, além de estar relacionado ao aumento da massa muscular e redução do percentual de gordura, dentre outros.
Um exemplo de estudo com animais foi o desenvolvido por Park et al. (1997). Eles estudaram os efeitos do CLA sobre a composição corporal de camundongos. Os animais foram separados em dois grupos e suplementados com 5,5% de óleo de milho ou 5,0% de óleo de milho mais 0,5% CLA. Este último grupo reduziu de 57 a 60% de gordura corporal e aumentou de 5 a 14% a massa corporal magra.
Em 1998, um grupo de pesquisadores acrescentou CLA na dieta de camundongos, que receberam 45% ou 15% de lipídios, durante seis semanas. Eles observaram que o CLA proporcionou uma redução de 43 a 88% do tecido adiposo, independente da composição da dieta recebida (West et al., 1998).
Mas estes mesmos resultados seriam encontrados em humanos e de que maneira o CLA seria responsável por todos estes efeitos? Os mecanismos de ação do CLA em humanos ainda são inconclusivos e dependentes de alguns fatores tais como: doses suplementadas; tipo de isômero(s) suplementado(s) e duração da suplementação.
Alguns autores tentaram levantar algumas hipóteses para os prováveis efeitos da suplementação com CLA sobre a redução da gordura corporal. Brown & McIntosh (2003) observaram um aumento na atividade da enzima carnitina palmitoiltransferase (responsável pelo “lançamento” dos ácidos graxos (gordura) de cadeia longa para o interior da moticôndria, onde seriam “queimados”, com o auxílio da L-carnitina) e também sugeriram que poderia ocorrer um decréscimo no armazenamento de ácidos graxos no tecido adiposo, havendo redução do seu tamanho. Outros autores sugeriram que pudesse haver apoptose (destruição) do tecido adiposo (Miner et al., 2001), dentre outras explicações.
Uma das primeiras pesquisas realizadas com humanos foi conduzida por Blankson et al. (2000). Para isso, 60 indivíduos obesos foram divididos em cinco grupos (placebo - 9g de óleo de oliva; 1,7g de CLA; 3,4g de CLA; 5,1g de CLA e 6,8 g de CLA). Ao final de 12 semanas, verificou-se que todos os grupos que receberam CLA apresentaram redução significativa do percentual de gordura em comparação com o grupo placebo. Dentre os grupos que receberam CLA, a redução da gordura corporal foi significativamente maior tanto no grupo que recebeu 3,4 quanto 6,8 gramas por dia, sugerindo que doses acima de 3,4 gramas de CLA, ao dia, seriam desnecessárias. Neste estudo, não foi possível observar alterações na massa corporal magra e nos lipídios sanguíneos.
Resultados semelhantes foram encontrados por Smedman & Vessby (2001) mediante a suplementação com 4,2g de placebo/dia (óleo de oliva) ou 4,2g de CLA/dia, durante 12 semanas, em 53 homens e mulheres, com idade entre 23 a 63 anos. A suplementação com CLA levou a redução significativa da gordura corporal, sem ter promovido alterações nas concentrações de lipídios no sangue e no metabolismo glicídico.
Entretanto, estudos mais recentes nem sempre foram capazes de demonstrar tais efeitos. Petridou et al. (2003) administraram 2,1g de CLA ou placebo, durante 45 dias, para 16 mulheres não-obesas. Como resultado os autores observaram que apesar de ter havido aumento dos níveis séricos de CLA, a suplementação não promoveu alteração no perfil lipídico e na composição corporal dos indivíduos. Malpuech-Brugere et al. (2004) também não foram capazes de observar alterações na composição corporal, nos grupos que ingeriram 1,5 ou 3g ou de cis9trans11-CLA ou de trans10cis12-CLA, durante 18 semanas.
Apesar de existirem pesquisas realizadas por um longo período (durante 1 ano), sugerindo que a suplementação com CLA seria considerada segura (Whigham et al., 2004; Larsen et al., 2006), já foram apontadas evidências contrárias. Pelo menos 05 estudos já verificaram que a utilização da suplementação com CLA, especialmente o isômero trans10cis12-CLA, poderia acarretar resistência à insulina (Gaullier et al., 2002; Brown & McIntosh, 2003; Larsen et al., 2003; Risérus et al., 2004; Wargent et al., 2005).
Com base no acima exposto, ou seja, com base nas incertezas a respeito dos efeitos da suplementação com CLA e, especialmente, por ter sido contestada a sua segurança, esta suplementação passou a ser cada vez menos utilizada.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Letícia Azen Alves
Nutricionista
Instituto de Pesquisa de Capacitação Física do Exército (IPCFex)
Uma das autoras do livro Estratégias de Nutrição e Suplementação no Esporte – Ed. Manole – 2005.
Atendimento Nutricional: 2294-2126/ 2493-2950/ 3353-1641.
E-mail: letinutri@oi.com.br
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