ISSO É UMA MÁQUINA?

Uma vez eu fui apresentado a uma máquina. O fabricante preconizava que era sofisticada, complexa e diferente de tudo o que já existia. Pensei que poderia ser apenas uma estratégia de marketing, mas, como tinha tempo disponível e sou curioso, resolvi conhecê-la de perto

Uma vez, eu fui apresentado a uma máquina. O fabricante preconizava que era sofisticada, complexa e diferente de tudo o que já existia. Pensei que poderia ser apenas uma estratégia de marketing, mas como tinha tempo disponível e sou curioso, resolvi conhecê-la de perto. Quem me recebeu foi logo dizendo que eu não me arrependeria de ter vindo. A primeira impressão visual foi muito favorável. Era fabricada em todos os países e podia ser encomendada em várias cores, modelos e tipos. Apresentava-se ainda em diversos tamanhos, todos, porém, com a mesma qualidade de fábrica. A durabilidade era certamente um ponto alto – feita para durar mais de cem anos. Impressionou-me ainda o esquema de manutenção proposto: não havia necessidade de troca de peças, mas apenas a obrigatoriedade de atender as especificações de funcionamento. Defeitos de fabricação aconteciam, mas eram relativamente raros e muitos deles passíveis de solução nas oficinas especializadas. Estava ficando motivado e sentei para ler melhor o que seriam as condições de funcionamento normal. Nas primeiras páginas do manual, que poderia ser obtido em vários idiomas e até em braile, pude ler e entender o que ela possuía de mais revolucionário. O manual explicava que, quanto mais a máquina fosse usada em boas condições, melhor ela funcionaria.

Perguntei então, “como é o nome mesmo desta máquina?”. E alguém me respondeu, “corpo humano, meu amigo, feito para durar e ser cada vez melhor. Mas para isso é preciso dar amor, cuidar bem dele, evitar acidentes e poluição, agentes agressores, combustíveis impuros e principalmente, exercitá-lo regularmente”.

Ao contrário das convencionais, que se desgastam com o uso, esta máquina fantástica poderia se adaptar às mais variadas condições de utilização e ainda estaria funcionando cada vez melhor com o passar dos anos, especialmente se tratada com carinho, afeto e amor. Na página seguinte, outra informação inusitada e interessante: ela mesma se encarregaria de produzir, após alguns anos, novas máquinas idênticas e com o mesmo padrão de qualidade da original, desde que você a pusesse em contato com outra máquina semelhante. Procurei verificar que tipo de combustível ela utilizava. Demandava um aporte contínuo de oxigênio, o qual seria obtido do ar ambiente, e requeria ainda aportes esporádicos de outros produtos químicos de natureza energética, mas que, por sua variedade, não seriam difíceis de encontrar. Ainda ressabiado, gato escaldado que sou, procurei as notas de rodapé ou alguma informação que significasse problemas à vista. Fui então para a seção de condições normais de funcionamento. Lá dizia que se deve evitar o seu uso em ambientes poluídos e a ação direta de outros agentes agressores, especialmente a nicotina e o álcool, e deve funcionar de modo harmonioso e sem sobressaltos, sob o risco de encurtamento radical de sua vida útil e produtiva. O manual aconselhava também sobre a necessidade de evitar acidentes ou o manuseio intempestivo ou agressivo da máquina, atitudes que poderiam danificá-la e destruí-la de forma irreparável. Mas o item que mais me chamou a atenção foi a observação de que, para o seu funcionamento perfeito, ela nunca deveria ficar desligada ou ociosa, exceto por um período diário de descanso de cerca de 6 a 8 horas, preferencialmente contínuas. Na realidade, o manual preconizava que, para obter a plenitude de sua vida útil, ela deveria ser utilizada acima do seu ritmo inicial de funcionamento várias vezes ao dia e/ou três a cinco vezes por semana, a cerca de 70% de sua capacidade máxima, por aproximadamente 30 a 40 minutos. Todas as mudanças no ritmo de funcionamento deveriam ser precedidas por um aquecimento progressivo e concluídas com um esfriamento gradativo. Não havia contra-indicações quanto a se levar ao máximo o seu ritmo de funcionamento periodicamente, e até parecia que isso seria potencialmente benéfico.

Enfatizava que, para um melhor resultado, essas normas de funcionamento deveriam ser sempre seguidas, e não apenas durante um pequeno período de tempo. Observei ainda, com satisfação, que nem óleo para lubrificar as engrenagens a máquina precisava, pois o próprio funcionamento pleno já era autolubrificante. Eu realmente estava encantado, as normas de funcionamento me pareciam extremamente simples e a durabilidade e vida útil, propostas fantásticas. Perguntei então, “como é o nome mesmo desta máquina?”. E alguém me respondeu, “corpo humano, meu amigo, feito para durar e ser cada vez melhor. Mas para isso é preciso dar amor, cuidar bem dele, evitar acidentes e poluição, agentes agressores, combustíveis impuros e, principalmente, exercitá-lo regularmente”.

(Artigo originalmente publicado na revista Physicos - Vencendo a Dor. Ano 3, nº1.)



Cláudio Gil Soares Araújo
Professor do programa de pós-graduação em Educação Física da Universidade Gama Filho (UGF)
Diretor-médico da Clínica de Medicina do Exercício (CLINIMEX);
Coordenador do Curso de Especialização em Medicina do Exercício e do Esporte da Universidade Estácio de Sá (UNESA)



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