Nutrição e Saúde

ALIMENTAÇÃO PRÉ-EXERCÍCIO

É crescente o número de pessoas que vêm se preocupando em realizar uma alimentação saudável. No entanto, em função das facilidades de acesso ao conhecimento, muitas informações equivocadas e sem base científica acabam sendo disseminadas. A preocupação com o alcance de uma rápida melhora estética ou com um bom desempenho físico, transforma praticantes de atividade física nos alvos mais fáceis de tais informações. Muitos desconhecem as principais alterações a serem adotadas na alimentação, com base nas exigências nutricionais geradas pela atividade física praticada, particularidades referentes à sua composição corporal e seus objetivos. Comumente nos deparamos com pessoas que acreditam poder fazer uso de dietas ou suplementações nutricionais adotadas por amigos ou pessoas que seguem modelos prontos exibidos em jornais e revistas.

O Nutricionista, especializado em Nutrição Esportiva, é capacitado a orientar o seu cliente em relação ao que ele deverá consumir, para a manutenção da saúde e alcance dos seus objetivos, além de sugerir os suplementos nutricionais, nos casos em que as necessidades nutricionais não estejam sendo, satisfatoriamente, supridas pelas fontes alimentares habituais. Entretanto, no momento do planejamento, este profissional não deve apenas realizar a estimativa das calorias a serem consumidas, com base no gasto energético do cliente, mas também deverá programar a adequação dos nutrientes (carboidratos, proteínas, lipídios, vitaminas, minerais e água) ao longo do dia, especialmente, nas refeições que irão preceder e suceder o horário destinado à prática da atividade, pois este é um dos critérios fundamentais para a garantia de um resultado final satisfatório. Desta forma, pergunta-se: quais são os principais aspectos nutricionais a serem enfatizados nas refeições realizadas pré-exercício?

Evite praticar atividade física em jejum.

Esta é uma prática comum entre pessoas que desejam perder peso mais facilmente. Entretanto, vale ressaltar que, apesar da “queima” de gordura poder ser potencializada mediante a hipoglicemia (baixas concentrações de açúcar no sangue), o rendimento físico fica sensivelmente prejudicado, o que muitas vezes faz com que a pessoa interrompa a sessão de exercícios, especialmente aqueles mais intensos e/ou de longa duração, levando a um menor gasto energético.

Não ingerir grande quantidade de alimentos muito próximo ao início da atividade física.

Como a capacidade digestiva varia entre pessoas, orienta-se ingerir o volume de alimentos ao qual seu organismo esteja acostumado ou de forma a não sentir o estômago dilatado.

Não faça uso de alimentos gordurosos, condimentados ou que sejam estranhos a sua alimentação habitual, para evitar que estes causem enjôos, náuseas, dores abdominais, diarréia, dores de cabeça, entre outros transtornos.

Não esqueça de hidratar-se.

  • 4h antes do exercício: recomenda-se a ingest˜o de 5 a 7 mL de líquidos para cada quilo de peso (ex.: uma pessoa de 70 kg deveria ingerir de 350 a 490mL);
  • 2h antes do exercício: recomenda-se a ingestão de 3 a 5 mL de líquidos para cada quilo de peso (ex. uma pessoa de 70kg deveria ingerir também de 210 a 350mL 2 horas antes), se não tiver havido produção de urina ou se a urina produzida estiver mais concentrada (ACSM, 2007).
  • Como a atividade física não foi iniciada, a princípio, esta reposição hídrica poderá ser feita através da ingestão de água pura, já que os Repositores Hidroeletrolíticos são recomendados após a ocorrência de significativas perdas de sais minerais através da transpiração.

    Dê preferência às refeições que contenham principalmente fontes alimentares ricas em carboidratos (ex. frutas, cereais, macarrão).
    Estes alimentos são os de mais fácil digestão e permitirão que se tenha mais energia para a prática da atividade física. Entretanto, procure evitar o consumo excessivo de alimentos de elevado índice glicêmico (Tabela 1: ex. batata inglesa, pão branco, mel, arroz branco, milho), pois estes podem estar relacionados à queda no desempenho. A principal explicação para isto estaria relacionada ao fato dos alimentos de alto índice glicêmico estimularem uma significativa liberação de insulina, hormônio responsável pela entrada da glicose para o interior das células.

    Elevados índices de insulina poderiam distribuir muito rapidamente a glicose para o interior da célula e, desta maneira, levar a um quadro de hipoglicemia, que estaria intimamente relacionado com uma queda no desempenho físico. Além disso, a insulina inibe as vias de “queima” de gordura, o que também poderia prejudicar o desempenho físico, tendo em vista que as nossas reservas corporais de gordura são bem superiores às reservas de carboidrato, conforme se pode observar na Tabela 2. Logo, para que  se possa dar prosseguimento a atividades de longa duração, torna-se interessante  priorizar a utilização de combustíveis energéticos que o nosso organismo dispõe em maiores concentrações. Sendo assim, através da alimentação pré-exercício, quanto mais dispormos de substrato para fornecimento de energia, estimulando, ao máximo, a “queima” de gordura, estaremos postergando a fadiga. Isto é possível, por estarmos poupando reservas corporais de carboidrato (glicogênio), tão preciosas, quer seja pela elevada taxa de requisição da mesma, quer seja em função da nossa limitação fisiológica para armazenamento.

    Para potencializar o aumento das reservas de glicogênio, até que se consiga alcançar o limite máximo, recomenda-se a ingestão de carboidrato pré-exercício em quantidades que irão variar de acordo com o momento da ingestão e horário previsto para início da atividade física:

    Três a quatro horas antes do exercício: recomenda-se a ingestão de 4g a 5g de carboidratos para cada quilo de peso corporal.
    Ex. Qual a quantidade de carboidrato pré-exercício (4h antes), necessária para um indivíduo de 80kg? 4,0 x 80 = 320g
    Exemplo de cardápio contendo 320g de carboidrato:

    • Macarrão (6 pegadores)
    • Suco de laranja (2 copos)
    • Goiabada (3 fatias médias)

    Uma a duas horas antes do exercício: recomenda-se a ingestão de 1g a 2g de carboidratos para cada quilo de peso corporal.
    Ex. Qual a quantidade de carboidrato pré-exercício (1h antes), necessária para um indivíduo de 75kg? 2,0 x 75 = 150g
    Exemplo de cardápio contendo 150g de carboidrato:

    • Suco de laranja (1 copo – 300mL)
    • Pão de forma com geléia (2 fatias de pão de forma + 11g de geléia)
    • Banana com granola e mel (3 bananas prata + 3 colheres de sopa de granola + 2 colheres de sopa de mel)

    Por fim, espera-se que estas recomendações não sejam tomadas como receitas, pois no momento da escolha dos alimentos e/ou suplementos a serem prescritos pré-exercício, o Nutricionista também levará em consideração as suas experiências anteriores, preferências,  intolerâncias alimentares, etc. Além disso, as condições climáticas do local onde a atividade física será realizada, as características da atividade física a ser realizada, o horário de início da mesma e a estrutura existente no local (ex. se haverá ou não a distribuição de algo para ingestão durante o percurso) também poderão gerar adaptações nestas recomendações.

    Tabela 1 - Índice Glicêmico (IG) de alguns alimentos

    ALIMENTO

    IG

    ALIMENTO

    IG

    Bolos

    87

    Cuscus

    93

    Biscoitos

    90

    Milho

    98

    Crackers®

    99

    Arroz branco

    81

    Pão branco

    101

    Arroz integral

    79

    Sorvete

    84

    Arroz parboilizado

    68

    Leite integral

    39

    Tapioca

    115

    Leite desnatado

    46

    Feijão cozido

    69

    Iogurte com sacarose

    48

    Feijão manteiga

    44

    Iogurte sem sacarose

    27

    Lentilhas

    38

    All Bran®

    60

    Ervilhas

    68

    Corn Flakes®

    119

    Feijão de soja

    23

    Musli®

    80

    Macarrão

    59

    Aveia

    78

    Batata cozida

    121

    Mingau de aveia

    87

    Batata frita

    107

    Trigo cozido

    105

    Batata doce

    77

    Farinha de trigo

    99

    Inhame

    73

    Maçã

    52

    Chocolate

    84

    Suco de maçã

    58

    Pipoca

    79

    Damasco seco

    44

    Amendoim

    21

    Banana

    83

    Sopa de feijão

    84

    Kiwi

    75

    Sopa de tomate

    54

    Manga

    80

    Mel

    104

    Laranja

    62

    Frutose

    32

    Suco de laranja

    74

    Glicose

    138

    Pêssego enlatado

    67

    Sacarose

    87

    Pêra

    54

    Lactose

    65

    Adaptado: FAO/OMS. Carbohydrates in Human Nutrition, 1998.

    Tabela 2 - Estoques de energia no organismo

    Substrato Energético

    Locais de armazenamento

    Total(g)

    Carboidrato

    glicose sérica
    glicogênio hepático
    glicogênio muscular

    4
    100
    350

    Gordura

    AGL séricos
    TG séricos
    TG muscular
    TG Tecido Adiposo

    1
    8
    278
    8889

    Proteína

    Proteína muscular

    7500

    Fonte: WILLIAMS, M. H. Nutrition for Health, Fitness and Sport. Ed. Ms Graw Hill. 5a ed., 1999

    Letícia Azen Alves
    Nutricionista

    Instituto de Pesquisa de Capacitação Física do Exército (IPCFex)
    Uma das autoras do livro Estratégias de Nutrição e Suplementação no Esporte – Ed. Manole – 2005.
    Atendimento Nutrivcional: 2294-2126/ 2493-2950/ 3353-1641.
    E-mail: letinutri@oi.com.br


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